EXPO Chicago 2026: Individual: Diego Mouro
Há anos, Diego Mouro abre, por meio da pintura, um território onde fé, memória e história se entrecruzam. Nesse espaço, o visível não se separa do onírico. Sua prática nasce de um estudo contínuo, iconográfico, espiritual e histórico, encontrando no ateliê um lugar de revelação lenta. Uma pintura conduz à outra; uma imagem já inscrita na tela convoca a seguinte. O trabalho avança como quem tateia em direção a uma presença que nunca se revela por completo.
No Brasil, a devoção a Nossa Senhora do Rosário se entrelaça às tradições afro-brasileiras e a modos de existência forjados pela resistência. Nas narrativas do Congado, a santa emerge das águas coberta de flores quando é chamada pelo canto coletivo, pelo som dos tambores, pelos corpos em dança. Ao surgir, torna-se mulher e dança entre eles, e aquilo que antes era súplica se transforma em celebração.
Dessa tradição surgem as Irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, guardiãs de uma religiosidade moldada pela celebração, pelo cuidado e pela transmissão. É nessa corrente que Mouro situa sua pintura, permitindo que a fé popular atravesse a matéria pictórica e transforme a tela em um campo de presença.
As obras se desdobram como capítulos de uma única narrativa. Cada tela amplia a anterior e antecipa a seguinte. Nelas estão a água, o som, o movimento, a respiração. O olhar quase escuta o ritmo dos instrumentos, acompanha o curso das águas, percebe a vibração dos corpos. A pintura carrega ecos da história da arte ao mesmo tempo em que se oferece como uma experiência sensorial, na qual matéria e espiritualidade se encontram. Nas palavras do próprio artista, “é urgente viver encantado”. A exposição acolhe essa urgência como um gesto simultaneamente poético e político: sustentar o encantamento como forma de permanência, resistência e cuidado.
O azul atravessa toda a exposição. Azul de manto, de mar, de proteção. Um azul que guarda uma memória de infância do artista, quando uma bênção desejava que Nossa Senhora cobrisse seus caminhos. A cor envolve, sustenta, vela.
Na Expo Chicago, Mouro apresenta uma experiência de mistério atravessada pela história brasileira e por suas camadas de fé, violência e reinvenção. Nossa Senhora do Rosário se revela e protege. E, na pintura, continua a chamar.