A proposta da Mitre Galeria para a SP-Arte 2026 parte de uma reflexão sobre tempo e atenção no contexto da feira. Em um espaço marcado pela circulação contínua e pela sobreposição de estímulos, o conjunto de obras apresentado afirma a importância da permanência, da observação prolongada e da experiência construída ao longo do tempo.
A programação de vídeos, com trabalhos de Aline Motta, davi de jesus do nascimento, Gê Viana, Juliana Matsumura, Manauara Clandestina, Marcus Deusdedit e Rafael RG, introduz uma temporalidade específica no espaço expositivo. A imagem em movimento convoca o público a desacelerar, suspendendo momentaneamente o ritmo da feira. Esses trabalhos elaboram narrativas que atravessam memória, corpo e história, operando com arquivos, presenças e processos de fabulação que questionam formas estabilizadas de visibilidade e pertencimento.
Em diálogo com esse núcleo, as obras em pintura, escultura e fotografia aprofundam questões ligadas à materialidade e à construção da imagem. Superfícies, volumes e enquadramentos concentram experiências e organizam tempos distintos, exigindo um olhar atento às relações internas de cada obra e ao espaço que elas produzem. A convivência dessas linguagens não estabelece hierarquias, mas amplia a percepção do conjunto e sustenta diferentes modos de atenção.
O recorte curatorial não se organiza em torno de um tema único, mas a partir de afinidades críticas que atravessam os trabalhos: a imagem como campo de disputa, o corpo como lugar de inscrição histórica e a memória como matéria em constante elaboração. Ao articular diferentes suportes e temporalidades, a proposta afirma a feira como um espaço de reflexão sensível e crítica, capaz de sustentar pausas e produzir sentido mesmo em um ambiente marcado pela saturação visual e pela velocidade das relações.