SP-Arte Rotas 2026: Coletiva

ARCA, 26 - 31 Agosto 2026 
Estande C12

Toda rota começa na encruzilhada

 

A proposta da Mitre Galeria para a SP-Arte Rotas parte de uma aposta: o percurso não se faz apesar dos encontros, mas por meio deles. Tomar a rota como princípio curatorial significa entender o estande como um trajeto a construir, e todo trajeto exige um limiar, um lugar de passagem antes do qual nada acontece.

 

Esse limiar é um portal: vinte e um Exus esculpidos por Sandro Ayê recebem quem chega e inauguram a lógica de tudo o que se segue. Nas matrizes africanas e em sua diáspora, Exu não é apenas o mensageiro entre os planos, é o princípio que dá movimento e transformação a toda existência, aquilo que impede o mundo de se fechar numa única verdade. Por isso seu território não é um lugar, mas uma condição: a encruzilhada, entendida menos como cruzamento geográfico e mais como postura diante do conhecimento. É essa mesma lógica que rege o estande: caminhar por ele não é seguir uma única direção correta, mas aceitar que várias lógicas atravessem quem passa, ao mesmo tempo, sem que nenhuma precise vencer as outras.

 

Ao lado do portal, um outro tempo se instala: as fotografias do Zumví — Arquivo Afro Fotográfico, de Salvador. Fundado em 1990 por três jovens fotógrafos negros da periferia soteropolitana, num país ainda processando o fim de uma ditadura, o Zumví nasceu de uma constatação simples e urgente: quase não havia fotógrafos negros registrando a própria vida. O nome, fusão de "zum", da lente que aproxima, e "vi", do verbo que testemunha, ecoa por coincidência sonora o nome de Zumbi, o que só reforça o que o arquivo sempre foi: um modo de ver que também é um modo de resistir. Onde Ayê invoca, traz o invisível à matéria, o Zumví testemunha: fixa o cotidiano antes que o esquecimento o alcance. 

 

Dessa dupla abertura (a invocação e o testemunho) nascem as direções que os demais artistas do estande perseguem, cada um a seu modo. Ayla de Oliveira, davi de jesus do nascimento, Diego Mouro, Gê Viana, Hariel Revignet, Isa do Rosário, Juliana Matsumura, Luana Vitra, Marcos Siqueira, Pedro Neves, Wallace Pato, trabalham linguagens diferentes, mas todos tratam a obra como algo em trânsito, nunca como ponto final. Há quem parta da matéria bruta e nela reconheça uma história de trabalho e deslocamento; há quem parta da paisagem e a reinvente em outra escala; há quem investigue modos de habitar o mundo que escapam a qualquer narrativa fechada. Em comum, a recusa de tratar a arte como chegada. Toda obra aqui é, antes, um cruzamento: o lugar onde uma história se encontra com outras e seguem, transformadas.

 

Na SP-Arte Rotas, a Mitre Galeria oferece um caminho para ser vivido. O portal, o arquivo, as pesquisas, cada parada inaugura a seguinte, e visitar o estande é menos observar do que se deixar levar. Aceitar esse convite é aceitar o de Exu: recusar uma rota única é, afinal, a única forma de abrir todas as outras.