Para abrir uma fenda no céu: sonhar a terra
Escutar os sinais lentos e implacáveis da terra: a ruína dos territórios, a memória resistente dos biomas, a força geológica que atravessa corpos e paisagens. Abrir uma fenda no céu surge como uma metáfora do encontro entre o real, no aqui e agora, com o imaginário possível de um futuro desejante.
Entre fogo, terra e minerais, as práticas de Benedikt Wiertz, Luana Vitra e Marcos Siqueira friccionam tradição e invenção, extração e cuidado e afirmam a arte como espaço onde a natureza — 'sujeito de' e 'sujeita à' constante metamorfose — encontra novas formas de ser percebida, sentida e elaborada. Cada trabalho emerge como vestígio e prenúncio: uma escuta da terra e do céu e de seus movimentos mais abissais. Exercitam a anunciação de um porvir que é tecido por forças que vibram e acreditam no extraordinário.
Em Benedikt Wiertz, a argila, força original da terra, é memória em transformação: matéria que recorda seu passado geológico, cultural e afetivo, e que se renova ao contato com as mãos que a moldam. Na série Undomesticated, o artista reúne argilas selvagens, cinzas, óxidos e esmaltes discordantes, criando peças que assumem o risco do imprevisível e revelam a tensão entre intenção humana e forças naturais, uma espécie de alegoria da nossa própria precariedade e resiliência diante das forças do tempo. O fogo, alquimista decisivo, cristaliza superfícies rachadas, topografias rugosas e geografias em miniatura, onde se inscrevem tanto as reações da matéria quanto os atritos emocionais do processo.
Em Luana Vitra, tecidos, cobre e ferro tornam-se operadores de forças invisíveis, equações que articulam espíritos minerais, memórias profundas e gestos de reinvenção. Seus trabalhos acionam temporalidades que ultrapassam o humano, aproximando cosmologias afro-diaspóricas de campos magnéticos, alquimias do metal e pulsações subterrâneas.
A partir de uma investigação profunda sobre os solos e a complexa biodiversidade do cerrado, e de um olhar atento e participante das manifestações do povo, seja no labor cotidiano, nas festividades, ou nas histórias narradas pelos antigos, Marcos Siqueira cria, com a terra que o faz caminhante, imagens imbuídas de uma subjetividade singular. Em suas composições desdobra o exuberante mundo de fora no sensível mundo interior, intangível, tornando tangível o balanço entre a celebração expansiva e a reflexão introspectiva.
E talvez seja nessa fenda, aberta entre matéria e desejo, que possamos entrever o mundo que teima em insurgir.