Diego Mouro: E também as flores : Texto: Ricardo Aleixo
Uma demanda ético-estética impõe-se às pessoas negras que fazem arte, no Brasil, hoje: tentar descapturar-se em relação ao voyeurismo do sistema artístico, ávido por “representações” – derivadas de abordagens superficiais do racismo na sociedade brasileira – das vidas negras reduzidas a “corpos”, por evocações apressadas, rasteiras e redutoras da concepção de ancestralidade e por um palavrório de cunho, no mais das vezes, motivacional, salvacionista e “instagramável”. No contrafluxo desse cenário nada promissor, Diego Mouro é um dos nomes, hoje, que nos oferecem fartas e bem equilibradas doses de inquietação artística, visada político-social e respeito à história da arte brasileira – sobretudo no que concerne à presença pioneira dos pintores negros do século XIX e das primeiras décadas do século XX, como, entre outros, Arthur Timótheo (1882-1922), Emmanuel Zammor (1840-1917) e Horácio Hora (1853-1890).
Diego, um virtuoso do traço e da cor, não faz de suas já reconhecidas qualidades técnicas e formais um valor em si. Herdeiro confesso dessa linha de tradição pictórica referida no final do parágrafo anterior, a qual considera sua “raiz forte”, nosso artista quer contar uma história, várias histórias, quem sabe, mais uns fiapos, fios soltos, de alguma daquelas incontáveis histórias sobre a gente negra e seus feitos que não puderam, não podem e não poderão ser contadas e que, por isso mesmo, “precisam ser contadas”. Nosso artista espicha o pensamento até bem longe: convoca as flores para dentro de suas telas, convida-as a tomar lugar em seu peculiaríssimo empenho narrativo, isto é, retrata-as (escuta-as) enquanto partícipes ativas de um sem-número de histórias já acontecidas, que ainda estão em curso e/ou que só ocorrerão no “talvez futuro” – não só aqui, no Brasil “Afro-reluzente”, para citar a bela expressão cunhada pelo poeta, compositor e pesquisador Nei Lopes, como em toda a vasta extensão das “Áfricas dispersas”.
Daí vem o título desta exposição, tão surpreendente quanto preciso: e também as flores. Trata-se da enunciação de uma aliança interespécies, que nos conduz, de imediato – mas sem pressa, como acontece com tudo o que remete “ao povo do tempo lento” – a uma das imagens mais recorrentes da rica e nem um pouco óbvia mitopoética do congado, cruza de catolicismo popular e religiosidade afro-brasileira que Diego Mouro, filho de uma família “muito católica”, teve a oportunidade de conhecer melhor durante a temporada que passou, há coisa de 2 ou 3 anos, numa cidade do sul de Minas: “Tá caindo fulô/ Tá caindo fulô// Tá caindo fulô/ Tá caindo fulô// Lá do céu/ cá na terra/ Olelê/ tá caindo fulô”. Esse “enfulorar” da terra pelo céu é sinal de que o céu também está sendo “enfulorado” pela terra, no mesmo instante em que retumba a pisada no chão de cada integrante do grupo que entoa as palavras de louvor e renovação da fé nos ancestrais e no próprio grupo.
Fiel à técnica – óleo sobre tela – com que vem firmando seu nome na arte brasileira contemporânea e ao propósito de seguir alheio aos modismos que imperam aqui, ali e acolá, Diego Mouro toca com firme delicadeza o mistério da vida e comparte com a gente o que viu e ouviu em suas conversas com as pessoas humanas e com as pessoas flores retratadas em seus quadros. Para quem só agora tem a alegria de se aproximar do universo criativo desse artista de quem muito ainda se ouvirá falar, esta mostra é um promissor ponto de partida. Como grafou Arthur Bispo do Rosário em um de seus estandartes, “Vos desejo uma excelente viagem”.
