Marabunta: Coletiva | Texto Juracan Lemus

9 August - 17 October 2025
  • Adán Vallecillo, Alejandro de la Guerra, Ana Tomimori, Anibal Lopez, Bruno Baptistelli, Carolina Cordeiro, Edgar Calel, Jenniffer Paiz, Jorge de León, Luana Vitra, Marcel Diogo, Paulo Nazareth

    Na sala onde se realizam as reuniões dos últimos graus da maçonaria, o piso xadrezado já não é decorado com quadros pretos e brancos, que representariam a natureza dual do entendimento humano e a passagem pela luz e pela escuridão ao longo da vida, mas sim com quadros brancos e vermelhos, simbolizando a busca pela verdade e a reconciliação dos “sangues” da espécie humana. Já que, supostamente, quem tenha alcançado um conhecimento profundo da política, da ciência e da história, tem a capacidade e a obrigação de guiar um conjunto de comunidades rumo a uma ordem harmônica, mesmo que estas estejam dispersas e, por vezes, em confronto.

     

    Sirva a menção desse outro sentido de “sala” e “quadro” como uma aproximação ao que, de alguma maneira, também se procura nesta “sala de exposições” de caráter artístico: reunião de diferentes posições políticas, experiências de vida e aproximações a uma “matéria”, cujo objetivo primordial é oferecer um panorama geral do sentir humano em um lugar e uma época.

    Lamentavelmente, o que apresentamos são escombros.

    E não poderia ser de outra maneira. Encontrando-nos como hoje estamos, à beirade uma mudança forçada na forma como a economia se organiza em nível global, da decadência do modelo republicano e de uma crise ecológica sem precedentes, as obras de arte não podem senão atestar a crise.

    Esculturas do que passou a se chamar “criminalidade comum”; reproduções em tela de fotografias de tragédias, mais terríveis na medida em que se tornaram cotidianas; miasmas produzidos pela cultura do adensamento urbano tornados “cores”; fetichização do solo e da arquitetura, enquanto o próprio solo é continuamente expropriado; nostalgias do que somos, com a forma estética do que ansiamos ser e jamais voltaremos a ser.

    Em meio a uma descorporificação da presença, a “reunião” torna-se necessária, porque é o espaço real que está se esgotando: o social e o natural. E nada pode a arte contra esse medo, que se percebe claramente em tudo o que agita a cultura, porque a técnica, o intelecto, o comércio... eram formas de construir um espaço comum e justo, ou simplesmente formas mais sutis de violência?

    Estamos tão habituados à desapropriação que, diante de cada repetição do roubo, apenas agradecemos que não tenha sido também a vida. Tão acostumados a sermos assassinados em massa e a esquecer os caídos que, ao ultrapassar certa quantidade de vítimas, o alarme se desativa e voltamos, como animais a remexer nossa miséria e esperar a morte.

    De fato, o sonho de um amanhã melhor se desvaneceu, ao menos aquele que nos foi prometido pelo capitalismo ocidental e sua acelerada revolução fabril. Os que padecemos de seu colonialismo hoje podemos olhar sem medo para a ociosidade cotidiana: coçar-nos, suar e limpar o sangue; voltar a falar daquilo que o mundo civilizado considerou alheio, domínio da morte. Onde o espaço físico da experiência sirva para nos reconhecermos uns aos outros.

    A arte, como mais um resquício do culto ao ego e à propriedade privada, hoje deve olhar para a terra, porque o resto do roteiro já sabemos de cor: a queda do império, a perseguição aos fracos, o assassinato em busca das “matérias-primas”.