Wallace Pato: Prenúncio de Alento: Texto: Keyna Eleison
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“Nada surge para ilustrar o cotidiano, mas para expandi-lo emocionalmente. Existe uma recusa em aceitar que a vida seja reduzida à violência ou à falta. O que sua obra oferece é outra gramática: a do encontro, do desejo, da sensualidade da presença, da beleza que nasce entre amigos, músicas, amores, ruas, bebidas, quintais e excessos que fazem a vida."
— Keyna EleisonProsa e poesia para o pintor…
E um poeta que acaba vadio, ai, é destino
A vida da gente é mistério
A estrada do tempo é segredo
O sonho perdido é espelho
O alento de tudo é canção
O fio do enredo é mentira
A história do mundo é brinquedo
O verso do samba é conselho
E tudo o que eu disse é ilusão
Alento, música de Paulo César Pinheiro cantada por Paulinho da ViolaWallace Pato é, antes de tudo, um pintor no sentido mais profundo da palavra. Sua pintura se organiza como imagem e como campo de imaginação sensível; lugar onde memória, desejo e intuição se encontram para produzir outras possibilidades de existência. Em suas telas, a figuração estabiliza e expande o mundo. Cada cor, cada corpo, cada atmosfera parece nascer de uma tentativa de tornar visível algo que ainda não possui forma completa na realidade: uma ideia de bem-estar construída coletivamente ao longo do tempo, herdada em gestos, músicas, encontros, afetos e modos de sobreviver.
Existe em sua prática uma aliança ancestral que compreende o viver não apenas como resistência, mas como elaboração contínua de prazer, beleza e dignidade. Wallace pinta como quem busca reorganizar espiritualmente o espaço ao redor. Suas pinturas funcionam como ensaios emocionais de um mundo possível. Ao olhar suas telas, pode-se entender tanto o que o mundo é quanto o que ele poderia vir a ser.
Alcançar uma felicidade plena ou definitiva? — talvez ele mesmo saiba que ela nunca se oferece inteira —, mas de construir imagens capazes de aproximar os corpos daquilo que desejam sentir.
É justamente nesse movimento que seu trabalho atravessa fronteiras entre espaço-tempo, entre o concreto e o transcendental. Cenas, profundamente mundanas — a presença humana, a rua, a música, a intimidade — mas tudo parece também suspenso por uma dimensão espiritual que ainda não tem nome. Continuidades invisíveis pintadas... Em suas imagens, a ancestralidade se entende como tecnologia de permanência, como força que atravessa o tempo para projetar futuros emocionais ainda inacabados. Sua pintura transforma o cotidiano em portal, fazendo do ato de imaginar uma forma radical de permanecer vivo.
Há uma longa tradição na história da pintura que compreende a tela como abertura: uma superfície capaz de rasgar os limites imediatos do mundo e oferecer outras maneiras de perceber a existência. Em Wallace Pato, essa tradição reaparece deslocada pela experiência suburbana, pela musicalidade popular e pela dimensão afetiva da vida coletiva. Suas pinturas operam como janelas, rasgando o sentido clássico de representação fiel de uma paisagem externa. O que elas abrem é um campo de sensibilidade. Ao olhar suas telas, se entra em uma imagem, em uma frequência emocional, em uma atmosfera onde imaginar deixa de ser abstração e passa a ser experiência concreta do olhar.
Existe algo contemplativo em sua pintura que mesmo que possa se impor uma distância, aproxima. As telas expandem quem as observa porque parecem permitir que cada pessoa reconheça desejos, memórias e estados de espírito que muitas vezes esqueceram, ou fizeram esquecer no cotidiano. Suas imagens se alinham com significados; respiram junto ao público. O que antes poderia existir como sonho, intuição ou delírio ganha matéria, cor e presença. E, ao ganhar presença, mobiliza quem contempla. Wallace pinta como um dispositivo de ampliação da vida: uma tecnologia poética capaz de fazer ver.
E aqui, matéria do alento… Repouso? Paz? Promessa de cura que organiza o mundo novamente?
Há algo profundamente radical na maneira como Wallace Pato compreende o alento. Em sua prática, aparece quase como um estado de vertigem: um delírio necessário para continuar vivo. Uma invenção cotidiana produzida por comunidades e acordos que operam a transformar precariedade em ritmo, cansaço em festa e vivência em conhecimento.
Sua pintura nasce dessa inteligência que conhece a dureza da vida com a contrução sutil e explosiva da alegria. Uma alegria - às vezes improvisada - como compor depois do fim do dia, como quem escreve poesia na mesa da banalidade, como quem dança sabendo do peso dos dias. Há música em suas telas porque há pulsação. Há poesia porque suas imagens parecem sempre carregar algo que escapa à descrição direta: uma atmosfera, um refrão, uma lembrança quente demais para ser organizada apenas pela razão.
Wallace Pato pinta o viver e o estar vivo como quem insiste na delicadeza. Nada surge para ilustrar o cotidiano, mas para expandi-lo emocionalmente. Existe uma recusa em aceitar que a vida seja reduzida à violência ou à falta. O que sua obra oferece é outra gramática: a do encontro, do desejo, da sensualidade da presença, da beleza que nasce entre amigos, músicas, amores, ruas, bebidas, quintais e excessos que fazem a vida.
O delírio do alento talvez esteja justamente aí: acreditar que é possível produzir calor em um mundo que continuamente esfria os corpos.
E, então, percebemos que hoje somos. Passado, presente e futuro.
Finalmente
a libélula pode deixar de ser palavra
e pousar.
Keyna Eleison
2026 -
Obras
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Press Release Text
A Mitre Galeria, em São Paulo, inaugura no dia 30 de maio de 2026 a exposição Prenúncio de Alento, individual de Wallace Pato, com texto curatorial de Keyna Eleison. Reunindo um conjunto inédito de pinturas, a mostra apresenta paisagens construídas por recortes, onde tempos e estados distintos se encontram em uma mesma superfície. Entre a memória e a invenção, as obras tensionam o que é visto e o que é projetado, abrindo espaço para uma experiência que atravessa o cotidiano e o imaginado.
O título ecoa o verso de Paulo César Pinheiro, cantado por Paulinho da Viola — "o alento de tudo é canção". Nas telas, cenas de convivência, figuras solitárias e atmosferas suspensas delineiam um território em constante deslocamento. A prática de Wallace Pato se aproxima da crônica e da fabulação, articulando elementos da vida popular brasileira, da musicalidade e da experiência suburbana em composições que expandem o campo da pintura para além da representação.