Ricardo Aleixo: Obracabada: Curadoria: Natália Alves
É provável que o que mais intriga a quem se aproxima pela primeira vez da obra de Ricardo Aleixo seja a amplitude, ou, para colocar a questão em outros termos, a desmedida do seu projeto criativo, espécie de “boca que come tudo” (“o que vier eu traço”, já alertava o poeta-artista num poema visual de "Festim: um desconcerto de música plástica", seu livro de estreia, de 1992), em aberta contraposição ao espólio colonial e suas máquinas de controle e captura da sensibilidade e do pensamento.
Inútil procurar algum repouso para os sentidos no intenso e contínuo “bordejo intersemiótico” que é a vastíssima obra de Ricardo. Tudo, a começar pelo próprio artista-poeta, segundo ele mesmo, é “permeável a tudo”. Tudo se relaciona com tudo, numa teia infinita e, por vezes, estonteante de relações entre os códigos. Tudo relativiza tudo, a partir da compreensão que Ricardo Aleixo cultiva acerca da falácia dos gêneros e das fronteiras geopolíticas e artísticas. O que importa, para Aleixo, é a fuga como exercício radical de liberdade, tal como preconiza o pesquisador, poeta e performer estadunidense Fred Moten, num gesto poético e estético de improvisação e criação de vida pelas vias da esquiva. Tudo, nessa obra furiosamente criativa e crítica, parece querer redesenhar-se, reconfigurar-se, descapturar-se, como um signo que procura, todo o tempo, em perspectiva sincrônica, traduzir-se em outros possíveis e incontáveis signos.
É preciso lidar com as obras de Ricardo Aleixo levando-se em conta, antes e acima de qualquer outra questão, sua materialidade. As coisas (as formas) são o que são. É preciso tentar compor com elas, liberá-las da tarefa de representar algo, e pensá-las como resultantes de gestos de descaptura e de desprogramação de si em relação aos pressupostos modernos, para lembrar o saudoso pensador contracolonial Nêgo Bispo.
Exemplo do que se afirmou até aqui é o neologismo que intitula esta terceira mostra individual – a primeira numa galeria particular – de Ricardo Aleixo, que reúne obras confeccionadas no período de 2000 a 2024. Só mesmo um cultor do inacabado, como o poeta-artista mineiro, para nos desafiar com uma trama textual e textural que, situada muito além do que seria a imagem um tanto grandiloquente e óbvia de uma “obra acabada”, nos leva, por meio do som da senha-fetiche “abracadabra”, a imaginar outras hipóteses para o que está posto. Ricardo lida com o pré e o pós da letra (E se a letra pudesse ser outra coisa? E se a garatuja pudesse se tornar letra?), o criar e o esvanecer e o recriar do sentido, a imaginação da matéria e o gesto que a conforma em obra, o tensionamento do espaço gráfico-visual, sempre de uma perspectiva que agencia a participação ativa de quem contempla seus trabalhos.
No Brasil, onde registram-se fortes vínculos entre uma poesia aberta às investigações plástico-visuais e uma arte que lança mão do signo verbal, é imprescindível conhecer com profundidade a obra vigorosa desse artista-poeta que, entre outras qualidades, empenha-se, como um "radical a partir de si mesmo", de acordo com o poeta e crítico Sebastião Uchoa Leite, em fazer da invenção sua bandeira de luta. Que o público permita-se apreciar um tipo raro de obra-pensamento que vem despertando cada vez maior interesse pelas cidades do Brasil e do mundo por onde circula. Alguém convoca um extenso rol de procedimentos técnicos e formais com o fim de fazer uma arte/poesia do “entre”. Quem terá olhos para ouvir e ouvidos para ver tamanha força criativa?
