Gustavo Speridião: Realismo: Texto Curatorial: Moacir dos Anjos
-
"Em Realismo, Gustavo Speridião condensa o que já sabe, mas se recusa a ficar parado. Segue escutando movimentos e pintando ruídos; transformando sensações vividas em equivalências sensíveis que oferece à vista pública. Investiga o complicado que é saber da vida e produz, a seu modo, uma pedagogia da pintura. "
- Moacir dos Anjos
Representar o real de modo supostamente objetivo. Reprisar, em imagens pintadas ou em palavras escritas, o que seria a experiência ordinária da vida. Criar equivalentes sensíveis do mundo capazes de comunicar, a qualquer pessoa, o que é próprio de lugar e de tempo precisos. Tornar a impressão singular de um fato em uma verdade inequívoca. Essa era, de algum modo, a pretensão do Realismo, movimento artístico surgido na Europa há mais de século e meio. Pretensão que estava, desde logo, fadada à falha e ao fracasso, posto que do real, ensinou depois a psicanálise, pode-se somente apreender partes ou cacos. Não há como apreendê-lo por inteiro, ou de modo nítido, ou de uma única forma. Algo (ou muito) sempre escapa, fica borrado ou pode ser contraditado. Mesmo a fotografia, invenção que parecia poder satisfazer a vontade de representação mimética do mundo, mostrou-se parcial, indecisa, subjugada aos desígnios de quem a produz. A captura do vivido é sempre atravessada por subjetividades díspares, fazendo da representação do real um estilhaço de possibilidades – conflitantes e, por vezes, contraditórias.
Havia no Realismo, contudo, um outro ímpeto – menos ambicioso – que marcaria muito da produção artística ocidental desde então. A despeito de suas diferenças, existia, entre os criadores associados ao movimento, o desejo de figurar ou de descrever aspectos da vida que não constavam do repertório usual da arte. Recusando convenções de representação que ignoravam a concretude da existência e simbolismos ancorados ainda em outros tempos, esses artistas afirmaram seu anseio por registrar as formas diversas de a vida acontecer. Uma vontade de real que, mesmo não podendo ser satisfeita de modo inequívoco e inteiro, produziu imagens quase ausentes no campo artístico da época. Imagens de um mundo extremamente desigual, onde a alguns eram permitidas possibilidades largas de vida, enquanto a outros se estreitava o que era considerado realizável. Imagens que representavam um mundo inequivocamente cindido e, por isso, prestes a mudar.
Faz sentido, portanto, que Gustavo Speridião tenha nomeado de Realismo a sua mais recente série de pinturas. Não se trata, é evidente, de querer inclusão em movimento de um passado remoto; tampouco de buscar atualizá-lo para o agora. Nada mais distante do que move e sustenta a sua obra. O que seus trabalhos fazem é reconhecer, sem alarde, tanto os fracassos quanto as possibilidades de um impulso de criação coletivo que quer agarrar-se ao mundo para poder transformá-lo. Trabalhos que, a despeito do momento histórico regressivo no qual são criados, teimam em esquadrinhar o mundo sensível e extrair, dele, informações que sirvam para construir um outro lugar de vida compartilhada – menos violento e menos injusto. Trabalhos que ecoam, de outras maneiras, o que manifestantes escreveram em muros décadas atrás: ser realista é querer o que parece ser impossível de acontecer. Ao menos por agora. É para criar o que não existe ainda, afinal, que serve a imaginação.
Em trabalhos anteriores, Gustavo Speridião traduziu, como pintura, palavras e frases ouvidas ou lidas em manifestação políticas. Decodificou, em telas, o ruído que enchia ruas. Em outros, organizou o espaço pictórico a partir dos paradoxos formais que orientam esses encontros, em que o estar fora e o estar dentro se confundem. Em Realismo, contudo, seu ponto de partida são as imagens compactas – simultaneamente nítidas e confusas – que registram esses movimentos açodados de gentes nas cidades, nos quais indivíduos se tornam multidão. Imagens quase abstratas de um mundo fraturado, arruinado em partes, em guerra. Imagens, no mais das vezes, feitas, distribuídas e consumidas em telas de celulares. Imagens que mais representam um fluxo do que registram um momento, e nas quais indivíduo e agrupamento por vezes se confundem. Que capturam corpos em queda, feridos, mortos. Que registram os trajetos e os efeitos de mísseis e balas. Em “Realismo 10”, se vale de muitos materiais – carvão, nanquim e variadas tintas – para inscrever, em imensa tela de algodão, o que parecem ser rastros de movimentos, vestígios de passagens ou sinais de presença. Dos outros, do próprio artista. De vida e, também, de morte. Representação magnificada e fabricada de uma percepção de mundo difusa e, ao mesmo tempo, precisa. Uma quase-paisagem vista ao rés-do-chão ou de cima. Em outro trabalho – “Realismo 8” –, de tamanho muito menor, pinta o que parece ser a apreensão de corpo em deslocamento; ou sudário de quem já não está mais ali. O real escapa sempre.
O fato de as pinturas serem quase todas numeradas parece indicar, justamente, a repetição de um intento de captura. Que nunca é o bastante, mas que é sempre requerido. A vontade de condensar, no espaço concreto e histórico da pintura, ensaios de algo que não tem conclusão alguma. Não há um fim certo nesses espaços inventados pelo artista, e sim a organização de uma busca. Uma investigação que mobiliza um repertório pictórico original e extenso tecido por vários anos. Que “fura” o plano esfumado com superfícies geométricas densas, que divide o espaço inventado em cantos ou câmaras, que introduz vermelhos e azuis quando o olhar pensava flutuar somente em claros e escuros, que sugere formas apenas para depois subtraí-las da vista. Uma investigação do real que não recua ante a proximidade entre o “vazio e o nada”, ainda que estes sejam, como sugere e afirma a pintura, tão diferentes.
Em Realismo, Gustavo Speridião condensa o que já sabe, mas se recusa a ficar parado. Segue escutando movimentos e pintando ruídos; transformando sensações vividas em equivalências sensíveis que oferece à vista pública. Investiga o complicado que é saber da vida e produz, a seu modo, uma pedagogia da pintura.
-
Installation Shots