Luana Vitra: Cálculo para beijar o magma: Texto: Ariana Nuala
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"Em seu exercício artístico, Luana Vitra afirma a materialidade como força vital e ativa. Ferro, cerâmica, cobre, pedras, tecidos e plumas surgem como elementos em seus trabalhos e se abrem como corpos cósmicos, agentes que instauram ritmos e movimentos próprios. Os materiais não se somam como inventário, mas se tensionam em campos de força."
- Ariana Nuala
Houve em mim o desejo de escrever um grande diagrama para me conectar à prática de Luana Vitra (Contagem, MG, 1995). Logo percebi que alinhar palavras em sequência, ligadas e separadas por distâncias formais, não respondia à dança de sua obra. As composições sugerem outra escala: uma geometria expandida, aberta à matemática cósmica e conduzida por um marcapasso construído por minerais. Abandonei, então, esse primeiro impulso de escrita para seguir as imagens que surgiam nas conversas com a artista.
Uma delas era a de uma série de bicos de pássaros em ferro, com cerca de dez centímetros, espalhados pelo chão, com colorações distintas a partir da mescla de minérios, essa sequência, neste instante, condensou a atmosfera de sua pesquisa, em que o ferro adquire centralidade. Esse elemento não é apenas material de ofício ou resíduo da mineração, mas também ponto de convergência entre corpo e energia. Na astrofísica, o ferro-56 é o último elemento produzido por estrelas massivas antes do colapso que as leva à supernova ou ao buraco negro1. No corpo humano, é o ferro da hemoglobina que transporta o oxigênio e garante a respiração. E é também o mesmo ferro que chegou até nós como poeira estelar, herança das explosões que formaram o cosmos. O limite da estrela e o sangue se encontram aqui como ciclos de infinitude, colapso e regeneração que atravessam sua prática. Luana me conta outra descoberta: algumas aves possuem magnetita nos bicos — ferro em sua forma magnética, presente como pedra dotada de magnetismo —, além de células especializadas nos olhos capazes de detectar o campo magnético da Terra. É exatamente por essa característica que conseguem se orientar pelos fluxos invisíveis da própria Terra. Esse detalhe inscreve-se em sua pesquisa como mais um elo entre corpo, mineral e orientação invisível.
Em seu exercício artístico, Luana Vitra afirma a materialidade como força vital e ativa. Ferro, cerâmica, cobre, pedras, tecidos e plumas surgem como elementos em seus trabalhos e se abrem como corpos cósmicos, agentes que instauram ritmos e movimentos próprios. Os materiais não se somam como inventário, mas se tensionam em campos de força. O ferro carrega a densidade do colapso estelar e da presença no sangue, peso que ancora o corpo à terra. A cerâmica, ao se firmar apenas após a passagem pelo fogo, revela a transformação da argila em forma receptora, e, no trabalho de Luana, em recipiente de forças dinâmicas. O cobre, metal condutor, abre canais invisíveis de circulação. As pedras — lápis-lazúli, pedras de minério de ferro e magnetitas — condensam o tempo profundo da geologia, silêncio encarnado que resiste à domesticação. Já os tecidos funcionam como membranas porosas, pele que respira e media contato. E as penas, que vêm integrando seus últimos trabalhos, em contraponto à gravidade do mineral, trazem a figura do pássaro como agente que compreende a atmosfera etérea, espaço também circundante dos minerais.
Ao lidar com o ferro e outros minerais, Vitra também convoca a história de extração e expropriação que marca seu território de origem. Minas Gerais, cuja economia foi moldada pela mineração desde o período colonial, permanece até hoje como um dos centros de exploração mais intensos do planeta. Nesse contexto, o gesto da artista não é neutro: suas esculturas e instalações devolvem densidade simbólica ao minério, que passa de mercadoria a corpo vivo, vibrátil e relacional.
Pergunto a Luana se suas obras se dimensionam no espaço como um campo magnético, em que cada forma se relaciona por forças de atração e repulsa. Ela me fala, porém, da possibilidade de outro caminho: aquele que parte da pulverização do ferro, base que atravessa sua pesquisa, e da necessidade de fazê-lo circular em diferentes lugares, reafirmando sua presença. Nesse ponto, recorro ao termo emaranhamento (entanglement), vindo da física quântica, descrito por Einstein como uma “ação fantasmagórica à distância”: quando duas partículas estão emaranhadas, seus estados permanecem conectados, independentemente da distância que as separa. Essa condição desestabiliza a lógica cartesiana da separação e sugere que a realidade não é feita de unidades isoladas, mas de relações intrínsecas.
Este entrelaçamento se revela também na maneira como a exposição revisita obras anteriores, como Céu é sutura (2018), Até que alguma coisa me pense para dentro (2023), Abraçadeira (2023) e Giro (2023). Nelas, Vitra reitera a ideia de que a obra não é resultado inerte, mas processo em movimento, assim ponto para criação de novos trabalhos. O gesto repetido, quase ritualístico, produz formas que permanecem abertas ao espaço, contaminando a percepção de quem se relaciona com elas. Mas é sobretudo nos trabalhos em que o pássaro comparece como presença mineral que o caminho dessa exposição começa a ser projetado, a exemplo de trabalhos como Pulmão da mina (35ª Bienal de São Paulo, 2023), em que flechas-amuleto de ferro, pássaros banhados em cobre e prata, pigmento índigo e pequenas caixas de waji evocavam uma energia migratória; e em Amulets (SculptureCenter, Nova York, 2025), cuja obra central, Dança, tratava da relação entre ferro e níquel no núcleo da Terra, o mesmo centro que gera o campo magnético capaz de orientar a migração dos pássaros. Esses trabalhos se conectam ao atual, revelando como o voo e a mineralidade se amarram num mesmo gesto de orientação e de força telúrica, mediados por cálculos para que a comunicação possa existir.
O azul, enquanto cor, também retorna a partir do pigmento conhecido como waji, comumente utilizado em contextos rituais e que, em sua composição, carrega diferentes minerais. O sódio, essencial para diversas funções biológicas, aparece como componente básico desse pó azul. O alumínio, metal abundante na crosta terrestre, também integra sua formulação. E os silicatos, compostos de silício e oxigênio, completam a estrutura química, aproximando o waji da densidade mineral. Esse conjunto confere ao pigmento não apenas sua cor intensa, mas também a espessura material que o distingue do anil industrial. A ordenação presente em sua prática não reduz o pensamento, mas se afirma na composição, chave de sua pesquisa. Essa composição emerge da reorganização de materiais muitas vezes industriais, retirados do cotidiano operário e dos sistemas de trabalho. Em suas mãos, a aparente ordem desses objetos se desfaz: eles são rasgados, cortados, realinhados e, assim, emaranhados.
A obra de Vitra, no entanto, não se limita a paralelos poético-científicos. Ela insiste na necessidade de dar voz às forças não humanas, reconhecendo que a política não é monopólio do humano, mas também se joga nos regimes da matéria e da energia. Nesse horizonte, suas esculturas não podem ser lidas como representações, mas como ativações. Os gestos escultóricos reiteram movimentos que coreografam partículas, poeiras, respirações e gravidades. Os pássaros são condutores máximos: seus bicos carregam uma soma de oralidades, vibrações, assim como a aproximação de Luana com seus familiares e, principalmente, com seu pai, Jorge da Costa, com quem já dividiu alguns trabalhos ao longo de sua trajetória, e também se apresentam na ponta de cada bastão de comando no congado mineiro, uma insígnia de poder.
Esses gestos se aproximam de uma costura: pontos e nós dados na terra, como um ato cirúrgico que reorganiza aspectos físicos e vitais — corpo, saúde, comida, casa, vida econômica, relações sociais, células, átomos. Trata-se de uma reorganização da energia material, como um grande Ás de Ouros2, carta inaugural da matéria que, ao emergir, anuncia não apenas o peso da terra, mas também a possibilidade de novos começos.
- PHILLIPS, Anthony C. The physics of stars. John Wiley & Sons, 2013
- Jodorowsky nos escreve sobre o Ás de ouro: “Energia material. O corpo, a saúde, o aspecto físico, o lugar onde se vive, o território, a roupa, a comida, a casa. O ofício, a vida econômica, a prosperidade, o dinheiro. O lugar no mundo, as relações sociais, as células, os átomos, as moléculas que nos constituem, o planeta Terra. Elemento: terra. Corpo: ao nível dos pés (rente ao chão, como o Ás de Ouros).” No Tarot, os quatro naipes representam dimensões fundamentais da experiência: Paus (fogo, energia criativa), Copas (água, afetos e inconsciente), Espadas (ar, intelecto e conflitos) e Ouros (terra, corpo e materialidade). Nesse último conjunto, o Ás de Ouros ocupa lugar inaugural: anuncia a potência da energia material em sua forma primeira, ligada à prosperidade, à concretude e à vida terrena. A referência ao Ás de Ouros remete à leitura de Alejandro Jodorowsky em O caminho do Tarot (2004), em que essa carta simboliza a energia material
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