Pedro Neves: Zuilla - Bandeiras Verdes: Texto: Nathalia Grilo
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"A um olhar estrangeiro, a imaginação espiritual brasileira pode soar extraordinária. É um campo plural, onde as manifestações se enlaçam em redes vivas. Nesse rizoma que pulsa, convivem matrizes cristãs, saberes afro-atlânticos e indígenas, anunciando uma filosofia do encantamento. Aqui, o Encanto é presença real."
— Nathalia Grilo
Ao sul do Maranhão, ele se mostra em práticas incorporadas e ligadas à terra que, há séculos, funcionam como tecnologia comunitária diante das violências históricas. São essas forças que fazem do corpo, da casa e da mata lugares de memória e invenção. Falar em espiritualidade no Brasil é tocar forças que sustentam a vida em sua própria raiz.
Zuilla foi o nome da mãe de santo da bisavó do artista Pedro Neves, ela foi a guardiã de um terreiro dedicado a São Francisco, presença que vibra no Ceará em forma de um poderoso rio. Na estiagem dos anos 1930, a família de Pedro seguiu do Ceará ao Maranhão, levando rezas, pequenas relíquias de chão e a lembrança dessa casa de cuidado. Zuilla não é apenas memória, mas rastro de linhagem espiritual, gesto de travessia, ponto de encontro entre fé popular, deslocamento e reorganização da vida.
As Bandeiras Verdes foram um movimento de peregrinação motivado por uma profecia atribuída ao Padre Cícero, que indicava a existência de uma “terra prometida”. Esses grupos deslocaram-se sobretudo rumo ao oeste e à Amazônia Oriental, em trajetórias lentas e marcadas por romarias e fixação temporária. Suas comunidades se organizaram a partir de práticas religiosas populares, um verdadeiro sistema jurídico-social contra-hegemônico. Parte dos preceitos associados ao movimento, como não derrubar a mata ou caçar, é hoje lida como expressão de cuidado ambiental. Assim, as Bandeiras Verdes constituem um capítulo singular da história de mobilidade interna no Brasil, articulando fé, reconstrução comunitária e modos alternativos de territorialização.
Pedro Neves é filho desses muitos Brasis. Sua família atravessou migrações, reunindo cultura popular e modos de fé que moldam seu corpo e imaginação. Do Ceará de Padre Cícero ao Maranhão de etnias indígenas antepassadas, florescem saberes terrenos e sobrenaturais que, guiados por uma cosmogonia própria, conduzem Pedro pelos passos de seus ancestrais. Nessa travessia, ele encontra sonhos sertanejos que espalham marcas migrantes pelas estradas do país.
Esta exposição, portanto, convoca encantamentos guardados nos veios de mestres terecozeiros, padres visionários, seres da mata e presenças invisíveis que alimentam a fé que orienta seu clã e tantas outras comunidades. “Zuilla — Bandeiras Verdes é uma memória coletiva de um passado… sobre o desenho de um dos Maranhões encantados, donde o povo da água doce vivia e plantava em paz”, diz o artista.
Para contar essa história, Pedro caminha para além do humano. Frutos extintos, plantas de poder, bichos da mata e velhas cabanas se apresentam como entes que respiram e falam. Visagens e encantados atravessam suas obras, oferecendo outra possibilidade de existência. Em catorze trabalhos, ele compõe uma memoração de sussurros devocionais vindos do mundo Encante, de um tempo em que não se distinguia religião de realidade, porque religião era realidade.
O primeiro núcleo da exposição apresenta a música como mediadora entre a vida e o Encante, ponte que sustenta o trânsito entre o mundo material e o invisível. Aqui, a sonoridade assume o papel de narradora das culturas populares, guardando ritmos, memórias e deslocamentos.
O percurso segue para o núcleo das surrupiras, onde corpo humano e natureza se tocam. As obras respondem ao avanço da fronteira agrícola, ao desaparecimento de plantas nativas e à retirada de encantados que deixam de dançar nos terreiros quando seus rios, matas e animais já não existem. São imagens de perdas e persistências, atravessadas por modos de viver que se reconfiguram.
O tempo atravessa esse conjunto: do pensamento anterior à colonização ao presente marcado pelas tensões ambientais, sempre com o desejo de um amanhã mais fértil.
As obras trazem cenas de natureza associadas aos sonhos e ao encantamento, perguntando quais eram as imagens guardadas pelos ancestrais que caminharam sem televisão ou fotografia. Essas pinturas e objetos inventam outra paisagem, vinda da memória e da escuta, onde mito, travessia e reinício convivem.
Nas palavras do artista: “me interessa a quietura dos segredos que nascem, vivem e morrem comigo.”
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Obras