davi de jesus de nascimento: carcaça: Texto: Ventura Profana
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"davi é o tempo do rio ensimesmado; uma velha bordadeira de embarcações, a criança recém-nascida (guardada por são francisco) dentro do cesto - feito pelo trançado dos ossos de arapiracas e inharés - que singra o córrego do formoso arriba, nas veredas de uma das mais antigas artérias do planeta"
- ventura profanaPara compreender a beleza do que as águas sublinham aqui é necessário acordar os caracóis que fazem morada nos ouvidos. soltar o corpo em escorrego, babar, sentir a febre que faz gemer, como gemem as tábuas da ponte, diante dos passos de quem volta de buritizeiro.davi é o tempo do rio ensimesmado; uma velha bordadeira de embarcações, a criança recém-nascida (guardada por são francisco) dentro do cesto - feito pelo trançado dos ossos de arapiracas e inharés - que singra o córrego do formoso arriba, nas veredas de uma das mais antigas artérias do planeta.a careta da carranca rasgou o vento que arrasta até à mitre uma urdidura, que antes, foi fuxico plantado por avós libélulas, durante as tardes em que sentavam à beira das portas de casa, para descascar laranjas e mangas tão rosas quanto o céu que cobre o sertão davi da. davi é guardião, um artista na cautela, semeador úmido de muito cuidado.no topo de sua cabeça as rodoleiras aguçam seus dentes e enrijecem suas mandíbulas;quem mira de longe jura ver coroa de rei, mas em verdade vos digo, são véus de raio.em sua carcaça estão abarcadas as marcas dos mistérios que rendam o destino de quem é escolhido para carregar na cacunda e no ventre, os filhos consanguíneos de uma forma de vida existente na terra há mais de quatrocentos e cinquenta milhões de anos.tudo que está nesta arca é risco e barranco de quem foi fecundado à ferroadas, é rastro da carapaça cuja carne hospeda o punhado de lavas que garantirão a multiplicação e continuidade da vida sobre humana: a peste gritando alertas. coxas, ancas e buchos cheios de estrias: correntezas em estado fóssil, a herança de uma gestação venenosamente mansa.Para que seu corpo suportasse a proliferação das sementes do que pra muita gente é esconjuro, foi preciso nutrir-se com o néctar presente nas drupas das pitombas, também chamadas de olho de boi. A instrução veio à tona na ponta do aguilhão, enquanto dois davis dormiam caramujados dentro de um oratório dedicado ao bom jesus das pedras.em grude, as lesmas se movem pelo mundo deslizando por sobre o próprio suco de prazer que gozam, numa paciência marrom.não é possível parir nada que preste, se o coração não estiver enleado ao querer do rio.as Mães engeradas em sucuris e surubins costumam abanar os sonhos dos filhos, como parte da missão de revelar a anatomia daquilo que só quem se afoga vislumbra: a vegetação da bocaina, um jeito pleno de se cultivar paz em meio à abastância de tantas guerras.há quem dilacere montanhas e esgote os ribeirões, há diabos capazes de inundar violentamente vilarejos inteiros tendo a ganância como motivação.Foram os rios que ensinaram sariguês e lagartos de olhos elegantes à arte da tanatose.às vezes é preciso fingir-se de morto ante aos seus inimigos.os Rios amanhecem guardiões como davi, para que a memória das águas não seja asfixiada pela desgraça colonial da humanidade.partenogênese: fêmeas se reproduzem sem a necessidade de machos.na carcaça, davi se concebe matriarca de uma nova espécie de navegantes, gente um tanto gente, um tanto anzol; bichinhas perturbadoras e aterrorizantes, encafufadas nos travesseiros de senhoras e senhores. interrompem o descanso com picadas que flamejam como chama de fogo selvagem.para viver é preciso exorcizar a dor, virar o contrário dos caminhos, estontear-se na delicadeza da peçonha até que das profundezas de suas conchas escorra unguento.ventura profana -
Obras
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Press Release Text
Mitre Galeria inicia um novo período expositivo com a individual carcaça, de davi de jesus do nascimento. Com texto crítico de Ventura Profana, a mostra reúne objetos-esculturas, fotografias, aquarelas e desenhos, maioria inéditos, que investigam de forma sensível, as relações entre corpo, território e ancestralidade. A exposição tem continuidade até o dia 16 de maio e acontece em simultâneo à abertura da instalação “Tororoma” (2026) realizada pelo artista no Inhotim.