Juliana Matsumura: RIO-CORRENTEZA
-
"O percurso de Matsumura parte de uma investigação sobre o Butsudan — altar doméstico da tradição japonesa dedicado à memória dos ancestrais — para expandir-se em direção a outras geografias afetivas. Ao adentrar também a história materna, ligada ao sertão baiano, a artista costura memórias de origens distintas, desdobrando-as em uma cartografia da ancestralidade que ultrapassa fronteiras nacionais e simbólicas. "
A mostra reúne uma série de trabalhos que investigam as relações entre memória, ancestralidade, diáspora e pertencimento, delineando um percurso sensível sobre como as experiências individuais e coletivas se entrelaçam na formação de identidades múltiplas e em constante movimento.
Parte das obras foi desenvolvida durante a residência artística Xakra, localizada na Serra da Moeda, em Brumadinho (MG). Conduzido pelos artistas Benedikt Wiertz e Joseane Jorge, o ateliê é um espaço dedicado à cerâmica e à culinária, fomentando encontros e trocas entre artistas e comunidades locais. Nesse ambiente, Juliana aprofundou processos experimentais na cerâmica e madeira que se materializam nas peças apresentadas, onde gesto, matéria e memória se imbricam de forma orgânica.
A artista trabalha com materiais como papel, argila, gesso, juta, madeira, tijolo e metal, evocando os cinco elementos taoístas — metal, fogo, água, terra e madeira. Essas matérias não apenas remetem ao mundo natural, mas também ao corpo e ao tempo, àquilo que se molda e se transforma. O uso do papel carbono, técnica que faz eco à infância dos anos 1990 e à ideia de inscrição e transferência, traz à tona a dimensão corpórea e afetiva do fazer artístico: cada marca revela o que permanece e o que se perde, como um registro de passagem.
O percurso de Matsumura parte de uma investigação sobre o Butsudan — altar doméstico da tradição japonesa dedicado à memória dos ancestrais — para expandir-se em direção a outras geografias afetivas. Ao adentrar também a história materna, ligada ao sertão baiano, a artista costura memórias de origens distintas, desdobrando-as em uma cartografia da ancestralidade que ultrapassa fronteiras nacionais e simbólicas. Essa recombinação de referências — algodão, mamão, caqui, a arquitetura da casa das avós — constrói um campo poético onde o pertencimento é sempre um projeto em aberto.
Em “Rio-Correnteza”, o trabalho de Juliana se move como a própria água: paciente, poroso, capaz de contornar, dissolver e recompor. Suas obras se apresentam como fragmentos de um mesmo rio, um mapa feito de dobras, fissuras e recomeços. Nas frestas desses encontros materiais e simbólicos pulsa a força vital das histórias que atravessam gerações — um fluxo contínuo entre corpo, tempo e memória.
-
Installation Shots