Benedikt Wiertz: Até Falhar a Terra: Curadoria: Flaviana Lasan
-
"Tantos anos de prática conferem à obra de Wiertz uma densidade singular. Há, em cada escultura, a precisão de uma técnica profundamente amadurecida e a experiência de uma matéria acompanhada por décadas em suas temperaturas, resistências e desvios."
— Flaviana Lasan
Caminhando ao lado de um rio, catando os cacos; apressado pelas imigrações, capturado pelo torno em seu movimento de rotação: contínua.
Dessas ações ficam os indícios deixados por Benedikt Wiertz para a cerâmica.
Quase cinquenta anos de movimentos firmes e sincronizados, em que mãos, corpo e mente se reúnem para concentrar, abrir, puxar ou moldar a terra, nos conduzem a um colapso orientado, tal qual um fogo incerto. Um colapso da matéria antiga que nunca desaparece de nossa humanidade, esparramada, convertendo-se em crateras de liberdade e, da forma útil, prepara-se para ser forma desnecessária, falhando a terra, enganando o barro. Essa terra é testemunha de nós, a idade dessa matéria sob incontáveis ciclos está acumulada em cada uma dessas cerâmicas escultóricas.
Tendo o fogo como co-autor, apresentam-se obras que estão privadas de sua função original, através das sutis assimetrias da peça torneada, o caráter individual do engobe aplicado com os dedos, as marcas atmosféricas deixadas pela chama e pela fumaça. As esculturas desobedecem! E essa é a maestria. Quebram, rercurvam, derretem; desaparecem em si mesmas, criando camadas abstratas que desafiam nossa compreensão do que esses meios ancestrais - terra, fogo, humano - podem alcançar.
Em tantos arranjos de temperaturas e influências, o acúmulo de calor encolhe a matéria e amplia a compreensão sobre como o corpo também emana e acumula calor. Ele passa de um para outro, da matéria para o corpo, do corpo para a matéria e assim, encurtamos a distância entre o que há de humano na terra e o que há de terra no humano. Sem controle na infinitude de existências e dos modos de sentir, as obras de Benedikt pedem aproximação, como tudo que é manual e criativo, o que faz nosso pensamento trabalhar mais. Todo olhar, a cada uma das esculturas, se renova a partir do espaço que estão, da luz que as cobre e até mesmo do som que rodeia nosso imaginário e, convidar a observação, é um dos atos mais gentis de nossa geração, de nosso tempo.
Tantos anos de prática conferem à obra de Wiertz uma densidade singular. Há, em cada escultura, a precisão de uma técnica profundamente amadurecida e a experiência de uma matéria acompanhada por décadas em suas temperaturas, resistências e desvios. Em um momento de crescente reconhecimento da cerâmica no campo da arte contemporânea, essa trajetória adquire uma presença particular e amplia as possibilidades de leitura sobre a própria linguagem. Percorrê-las é perceber a atualidade de uma obra que continua a abrir caminhos para a cerâmica escultórica. É nesse intervalo entre experiência e descoberta que este conjunto se oferece ao olhar.
— Flaviana Lasan, 2026
-
-
Press Release Text
A Mitre Galeria tem o prazer de apresentar ‘Até Falhar a Terra’, exposição individual de Benedikt Wiertz, com curadoria de Flaviana Lasan, com abertura no sábado, 17 de outubro, das 11h às 17h, em São Paulo.
A exposição reúne uma seleção de esculturas recentes de Benedikt Wiertz, que refletem quase cinco décadas dedicadas ao desenvolvimento de sua técnica e à investigação das possibilidades da escultura cerâmica. A partir do trabalho com o barro e de suas transformações durante o processo cerâmico, o artista desenvolve uma produção marcada pela experimentação, pela precisão e pela atenção contínua à forma escultórica.