Marcos Siqueira: Horizonte: Curadoria: Gisele Camargo
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O horizonte e a figura. A figura e o fundo. A figura que olha para dentro da pintura. A figura que olha para dentro de si mesma. Os fantasmas das figuras que aparecem no fundo e que se escondem entre as figuras que enfim se revelam. O horizonte que atravessa a figura, que corta sem decepar. A figura que compõe o horizonte. O corpo em contato com a imensidão, o silêncio desse encontro, o sublime e o banal desse encontro. Um ser cambaleante, super-herói e criança, ser que está, que serve, que se doa, presente e inteiro na paisagem.
O horizonte distante, com poucos personagens que desempenham funções cotidianas, singelas, por vezes inventadas, que enganam o inóspito da paisagem. O protagonista não é o personagem, mas a tarefa que ele realiza na natureza. Tudo gira em torno daquele fazer, inclusive o sol e a lua, geometrias tão recorrentes e tão equilibrantes nas composições de Marcos. O pintor se abstém da aridez que fundamenta a sua pintura, os tons ambíguos que confundem dia e noite, e traz o foco para a ação de quem habita aquele lugar e que o conhece profundamente, representando-o em mínimos gestos. Uma inteligência, por ora intuitiva, que reproduz corpos sem se comprometer com a proporção humana. Corpos-horizontes que são introduzidos na composição para se adequarem às ações; ações que subvertem a urgência de nossos tempos e que propõem uma temporalidade própria. Um embate que dá à figura uma singularidade fundamental em cada pintura.
É um canto-resposta. Está tudo ali. Marcos nasceu e sempre viveu no cerrado. Trabalhou com pesquisas de solo, entende do seu comportamento e de suas possibilidades, por isso mesmo retira dele os seus pigmentos em suas mais possíveis variações cromáticas: ocres, verdes, pratas, azuis, pretos, cinzas, vermelhos. E mesmo com a sua avançada produção em pintura, continua sendo brigadista na linha de frente de atuação contra os incêndios florestais que assolam a sua região, guia pessoas por campos rupestres, faz trabalhos de jardinagem, recolhe e recicla lixo, é atleta.
Marquinho, como é carinhosamente chamado entre os seus, conhece a Serra do Cipó com a palma da mão e a planta do pé. Tudo o que compõe o seu lugar e o seu tempo está presente na sua pintura através de uma observação lenta, curiosa, aguçada, minuciosa. O paiol onde dormia com seu irmão na infância, as garatujas de moleque, a afeição à terra, os feixes de luz que atravessam tijolos, a imensidão do cerrado, o suicídio dos animais que ardem, as poças espelhadas. Marcos percebe a transformação ínfima do que há de mais próximo no cotidiano e em suas fantasias, e consegue transpô-la para os seus quadros, usando como matéria-prima o que encontra e recicla da sua terra, seja o chassi seja o pigmento.
Este é um texto escrito a quatro mãos por pessoas que, de maneiras distintas, acompanham o processo de pensar, sentir e criar de Marcos. Não se trata de um texto crítico, mas de um texto testemunha de um fazer genuíno em todas as suas etapas. Porque Marcos é um ser encarnado e extremamente comprometido, que tem uma humanidade ímpar em tudo e com todos que se envolve. E com a sua pintura não seria diferente.
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Installation Shots